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Elas passaram séculos escondidas pela floresta. Agora, com o
desmatamento para a criação de gado, estão aparecendo cada vez mais. Os
geoglifos são formas perfeitas escavadas no solo, espalhadas pelo extremo oeste
da Amazônia. Serão vestígios de uma sociedade desconhecida? Ou restos do
lendário reino de Eldorado, com que tantos exploradores sonharam?
Segundo o paleontólogo Alceu Ranzi, da Universidade Federal
do Acre, os geoglifos formavam um grande sistema que se estendia por centenas
de quilômetros nessa região da Amazônia. Ranzi fazia parte da equipe que
descobriu os desenhos, em 1977. Mas foi só nos últimos tempos que o número de
achados disparou, graças a fotos de satélite disponíveis na internet. Já são
quase 300 geoglifos - de alguns, os pesquisadores nunca chegaram perto.
Apesar do nome, Boca do Acre fica no Amazonas. É para lá que
foi a equipe de reportagem do Fantástico, para ver de perto alguns geoglifos
que até então só haviam sido observados pelo pesquisadores por imagens de
satélite.
Em pouco tempo de vôo é possível ver as formas - algumas bem
nítidas, outras parcialmente encobertas pela mata. "Normalmente são quadrados e
círculos. Temos octógonos também, hexágonos...", cita Ranzi.
Para Jacob Queiroz, 93 anos, dono de terras onde existem
algumas figuras, elas não podem ser simples obras da natureza. "Isso aqui foi
gente que fez. Trabalho de engenheiro", comenta.
Revolução
Dentro de um dos canais que forma as figuras, é possível ver
que a terra foi escavada e cuidadosamente empilhada do lado de fora. Por isso,
chegou-se a pensar que as valas seriam trincheiras da revolução acriana, a
revolta do início do século 20 contra a dominação da Bolívia no território.
Mas a teoria das trincheiras está fora de cogitação. As
análises geológicas publicadas mostram que os geoglifos são muito mais antigos:
do século 13.
Outra questão intrigante é como os habitantes daquela época
conseguiram fazer isso dentro de uma floresta densa. "Imagino que essa região
da Amazônia devia estar passando por um problema climático", diz Ranzi. Os
cientistas têm uma hipótese: na época da construção dos geoglifos, a Amazônia
pode ter passado por uma seca muito forte, que transformou a floresta numa
imensa savana, parecida com o cerrado brasileiro.
Falta ainda a principal peça do quebra-cabeça: que tipo de
sociedade projetou esses monumentos? Certamente devia ter um certo grau de
organização para elaborar esses monumentos. As principais teorias sobre os
povos que viviam nesta região antes de o Brasil ser descoberto dizem que esses
povos jamais teriam tamanha sofisticação, eram nômades, ou seja, não passavam
muito tempo no mesmo lugar.
Para Jacó Piccoli, antropólogo da Universidade Federal do
Acre, é possível que haja uma relação estreita com os antepassados dos índios
atuais. "Mas podem ter sido também outras populações que habitaram a região",
pondera. É difícil estabelecer uma origem clara para os geoglifos, porque não
se encontram pistas nas tradições dos índios que vivem hoje na região.
Na falta de respostas, os moradores abraçam o sobrenatural.
Seu Jacob conta que, estranhamente, as valas nunca alagam quando chove e que,
do chão, sobe uma espécie de zumbido. "Uuuuuu.... que nem uma abelhal", conta.
Também não faltam suposições delirantes, como, por exemplo,
que os geoglifos seriam marcas deixadas por extraterrestres.
Quando olham para a imensidão da floresta amazônica
preservada, os cientistas ficam imaginando quantos geoglifos, quantos desenhos
geométricos estão escondidos debaixo das árvores. Eles estimam que nem 10%
deles tenham sido revelados.
Do Globo Amazônia, com informações do Fantástico
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