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Queimadas no Acre ameaçam a melhor farinha do Brasil Imprimir E-mail

f_1.jpgReportagem de vozdoacre.com teve acesso, com exclusividade, a documentos de trabalho de pesquisa que mostram que culturas como arroz, feijão e a mandioca que prepara a melhor farinha do país, da região do Vale do Juruá, estão destinadas à extinção por causa de queimadas.

O trabalho, iniciativa original de pesquisadores da EMBRAPA/Acre em parceira com o SEBRAE/Acre, está em condução em parceira com a UFAC - Campus Floresta de Cruzeiro do Sul e Secretarias de Agropecuária (SEAP) e de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (SEAPROF) do governo do estado do Acre. Um resumo desta pesquisa será apresentado na XVII Reunião Brasileira de Manejo e Conservação do Solo e da Água, no próximo mês de agosto, na cidade do Rio de Janeiro. Destaque é dado à participação na pesquisa do jovem cruzeirense Edenilson Silva, bolsista PIBIC do CNPq.

 

A mudança no uso do solo no Juruá, de floresta primária para atividades madeireiras e agropecuárias, segue o sistema tradicional, com corte da floresta, uso de queimadas para limpeza da área, às vezes o uso de grade para preparo do solo, e sem o uso de fertilizantes e corretivos.

f_2.jpgO solo é utilizado até que as suas reservas naturais de nutrientes e matéria orgânica sejam esgotadas, sendo a redução no rendimento dos cultivos o indicador desse momento, a partir do qual o uso do solo não é mais viável economicamente, ficando o mesmo em “descanso” ou “pousio”.

Os solos da região do Juruá são em geral ácidos, com baixos teores de cálcio, magnésio, fósforo e potássio, devido aos processos de formação a que esses solos foram submetidos em ambiente quente e úmido. Geralmente são solos arenosos na sua camada superficial, e argilosos em profundidade, o que os torna suscetíveis à erosão hídrica quando sem vegetação.

A precipitação total anual na região é maior que 2000 mm, que ocorre de forma concentrada no período de novembro a maio, posterior ao plantio, por exemplo, da mandioca, ficando o solo sem cobertura no início do cultivo e da estação chuvosa, visto que o crescimento inicial da mandioca é lento, e o espaçamento geralmente utilizado é grande. Essas condições favorecem a redução da qualidade dos solos. Neste estudo foram avaliados a densidade e o estoque de carbono orgânico total - COT em solos da região do Juruá sob floresta nativa e após cultivo/descanso.

As áreas de estudo foram selecionadas com base no histórico de uso do solo, com mesmos proprietários desde a retirada da floresta primária, na existência de área sob “descanso” e de florestas primárias (referência) próximas às áreas. As áreas pertencem aos municípios de Mâncio Lima [Pentecostes (7º28’39”S, 72º56’36”W)] e Cruzeiro do Sul [Santa Luzia (7º47’36”S, 72º24’07”W)]. As classes de solo das áreas são Neossolo Quartzarênico hidromórfico espódico (Pentecostes), sob contato de floresta ombrófila com campinarana em terras baixas, e Argissolo Amarelo distrófico típico (Santa Luzia), sob floresta ombrófila aberta de terra baixa com palmeira (Acre, 2007; Brasil, 1977).

O Neossolo foi desflorestado em 1990, cultivado com mandioca em anos alternados até 2003, e ficou sem cultivo e sob gramíneas, como barba de bode (Cyperus compressus), rabo de burro (Andropogon bicornis), braquiária brizanta (Brachiaria brizantha) e amargoso (Digitaria insularis) de 2004 a 2006. O rendimento máximo na área foi 6 t ha-1 de farinha em 1991 e 1992, e o mínimo 3,5 t ha-1 em 2003, portanto uma redução de cerca de 42% nesse período. O rendimento médio nessa região é 4 a 5 t ha-1.

O Argissolo foi desflorestado em 1991, cultivado continuamente por 2 anos (1992/1993), quando então ficou sem cultivo até 2006, sempre vegetado por ervas espontâneas, com predomínio de samambaia (Pteridium aquilinum). O rendimento máximo na área foi 5 t ha-1 de farinha em 1992/1993. O rendimento mínimo e o médio nesta região são semelhantes aos da área Pentecostes.

f_3.jpgO estudo foi realizado em experimento instalado em 2006, em blocos (40x50 m) ao acaso com parcelas subdivididas, três repetições e cinco tratamentos em cada bloco.

A gradagem e o plantio direto do solo são os tratamentos nas parcelas principais (50x20 m). Nas parcelas secundárias (10x20 m), os tratamentos envolvem o cultivo da mucuna (Mucuna aterrima) para cobertura do solo e adição de nitrogênio orgânico, a aplicação de calcário dolomítico (3-5 t ha-1) e P (46-58 kg P2O5 ha-1). Os tratamentos das parcelas secundárias são 1) testemunha, 2) mucuna, 3) mucuna+calcário, 4) mucuna+fósforo, e 5) mucuna+calcário+fósforo. Para caracterização das áreas, três trincheiras (20x30x40 cm) foram abertas em cada área, e amostras de solo compostas dos experimentos e da floresta primária foram coletadas nos meses de outubro/novembro de 2006, nas camadas de 0-10, 10-20 e 20-40 cm, e enviadas para Rio Branco para as análises para COT (Embrapa, 1997) no laboratório de solos do Departamento de Ciências Agrárias da UFAC.

As amostragens para densidade do solo foram realizadas em maio de 2007, nas camadas de 0-5, 5-10, 10-15, 15‑20 e 20‑30 cm, sendo as análises (Embrapa, 1997) realizadas no laboratório de solos do CMulti em Cruzeiro do Sul.

Os estoques de COT foram calculados por camada (0‑10, 10-20 e 20-30 cm) em massa equivalente de solo (Ellert & Bettany, 1995), utilizando-se a massa do solo sob floresta primária como referência. Neste estudo foram avaliados somente os resultados da testemunha e da floresta primária, que não foram alteradas entre as amostragens para COT e para densidade. A densidade no Neossolo sob floresta variou de 1,24 ± 0,04 g cm-3 (0-5 cm) a 1,19 ± 0,04 g cm-3 (20-30 cm), enquanto que após cultivo, a variação foi de 1,26 ± 0,07 (0-5 cm) a 1,50 ± 0,04 g cm-3 (20-30 cm). Por sua vez, no Argissolo, essas variações foram de 1,18 ± 0,03 (0-5 cm) a 1,41 ± 0,06 g cm-3 (20-30 cm) sob floresta primária, e de 1,27 ± 0,23 (0-5 cm) a 1,44 ± 0,07 g cm-3 (20-30 cm) após o cultivo.

Em ambos os solos, a densidade aumentou em todas as camadas após cultivo em relação ao solo sob floresta primária. Com exceção da primeira camada, os percentuais de aumento na densidade foram maiores no Neossolo [1,6 (0‑5 cm), 8,6 (5-10 cm), 14 (10‑15 cm), 25 (15-20 cm) e 26 (20-30 cm)] e menores no Argissolo [7,6 (0-5 cm), 1,4 (5-10 cm), 3,5 (10-15 cm), 5 (15-20 cm) e 2 (20-30 cm)].

Considerando que o uso de tratores e implementos agrícolas no Juruá não é tradicional, sobretudo na agricultura familiar, esses aumentos podem estar mais relacionados a processos erosivos, com perda de materiais mineral e orgânico das camadas superficiais, e migração de argila no perfil, sobretudo no Neossolo, do que a fenômenos de compactação decorrente do uso do solo.

A maior variação da densidade entre o solo da floresta primária e o solo cultivado no Neossolo (107 g kg-1 de argila – 0-40 cm) ou a menor variação no Argissolo (156 g kg-1 de argila – 0-40 cm) corroboram esse raciocínio. O estoque de COT foi decrescente em profundidade em ambos os solos, com valores variando entre 18,6 (0-5 cm) e 9,7 t ha-1 (20-30 cm) no solo sob floresta, e 17,5 (0-5 cm) e 9,9 t ha-1 (20‑30 cm) após cultivo do Neossolo; e entre 14,4 (0-5 cm) e 8,5 t ha-1 (20-30 cm) no solo sob floresta e 12,6 (0-5 cm) e 7,1 t ha-1 (20‑30 cm) após cultivo do Argissolo. O estoque de COT por camada foi diferente entre os solos avaliados, com as maiores diferenças ocorrendo na camada de 0-10 cm.

O Neossolo apresentou maior estoque de COT (> 4 t ha-1) nesta camada em comparação ao Argissolo nos dois tipos de uso do solo. O histórico de uso das áreas após o desflorestamento pode estar relacionado com essa diferença, visto que ambos são solos com baixos teores de argila. O Neossolo foi utilizado com gramíneas por mais de dois anos antes das amostragens.

No Argissolo, a cobertura predominante durante o período de pousio/descanso (> 12 anos) foi de samambaia, com sistema radicular do tipo rizoma. As gramíneas têm significativa capacidade de adicionar carbono orgânico ao solo, o que está, em parte, relacionado ao seu tipo de sistema radicular: fasciculado ou em cabelereira. Os maiores estoques de COT nas camadas do Neossolo em relação ao Argissolo, ambos sob floresta, podem estar relacionados à posição da floresta no relevo. A floresta do Neossolo está localizada em posição de baixada, sujeita a períodos de saturação, enquanto que a do Argissolo, embora também de terra baixa, está situada em posição mais elevada, com drenagem favorável. O acúmulo de carbono orgânico é maior em áreas sujeitas a saturação do que áreas com boa drenagem. As diferenças de estoque de COT do Neossolo sob floresta e após o cultivo foram de 1,2 t ha-1 (0-10 cm) e 5,2 t ha-1 (10‑20 cm), correspondendo, respectivamente, a reduções após o cultivo de 6 e 29%. Os estoques de COT foram semelhantes na camada de 20-30 cm deste solo. As diferenças de estoque de COT do Argissolo sob floresta primária e após o cultivo foram de 1,8 t ha-1 (0-10 cm), 3,8 t ha-1 (10-20 cm), e 1,4 t ha-1 (20-30 cm) correspondendo, respectivamente, a reduções após o cultivo de 12, 28 e 16%. O estoque total de carbono orgânico (0-30 cm) foi de 47 e 40 t ha-1 no Neossolo sob floresta e após o cultivo, respectivamente, enquanto que para o Argissolo, para essa mesma seqüência, os valores foram 36 e 30 t ha-1. Estes valores estão de acordo com os determinados por Cerri et al (1996) para solos arenosos da Amazônia. A mudança no uso do solo de floresta primária para uso com cultivo agrícola no sistema de corte‑queima‑descanso aumentou a densidade e reduziu os estoques de carbono orgânico total dos solos avaliados, sobretudo nas camadas superficiais. Esses resultados são preocupantes para os solos arenosos da Amazônia, em especial os do Juruá, nos quais o relevo suave ondulado a ondulado é dominante e pode potencializar processos erosivos.
www.vozdoacre.com - Dilson Ornelas e Assessoria  

 PESQUISADORES:

Edenilson P. Silva[1]; Falberni S. Costa[2]; Manoel D.C. Filho[3]; Izanete B. Magalhães[4]; Antônio C.C. Santiago[5]; Lívia S. Cordeiro[6]


[3] Embrapa/CPAFAC
[4] Secretaria de Estado de Agropecuária – SEAP
[5] Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar, SEAPROF
[6] Serviço de apoio à micro e pequena empresa, SEBRAE/Cruzeiro do Sul
Esse trabalho tem o apoio de  CMULTI/UFAC, PIATAM OESTE/PETROBRAS, EMBRAPA/CPAFAC, CNPq, SEBRAE/AC  

 

Referências bibliográficas ACRE. Governo do Estado do Acre. 2007. Zoneamento ecológico e econômico – primeira e segunda fase. Disponível em: <http://www.seiam.ac.gov.br>. Acesso em: 02  de abril de  2008. BRASIL. Departamento Nacional da Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha SB/SC.18 Javari/Contamana; geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro. (Levantamento de recursos naturais, v.13). 1977. CERRI, C.C., BERNOUX, M., VOLKOFF, B. & MORAES, J.L. Dinâmica do carbono nos solos da Amazônia. In: ALVAREZ V., V. H., FERNANDES FILHO, E. I., FONTES, L. E. F. (Orgs.). O Solo nos grandes domínios morfoclimáticos do Brasil e o desenvolvimento sustentado. Viçosa: SBCS/UFV/DPS, 1996. p.61-69. ELLERT, B.H.; BETTANY, J.R. Calculation organic matter and nutrients stored in soils under contrasting management regimes. Can. J. Soil Sci., 75:529-538, 1995. EMBRAPA. 1997. Manual de métodos de análise de solo. 2 ed. Rio de Janeiro: Embrapa Solos. 212p.
 
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